A campanha do presidente Lula decidiu apresentar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ação contra a Meta e pedir a cassação da chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. A iniciativa atribui à empresa possível manipulação algorítmica em benefício do candidato do PL.
Na ação de investigação judicial eleitoral (Aije), os advogados sustentam que sistemas de recomendação, ferramentas de inteligência artificial e mecanismos de revisão de anúncios teriam prejudicado Lula. A peça também menciona episódios envolvendo Instagram, Facebook e WhatsApp.
As alegações incluem diferenças de alcance entre os perfis de Lula e Flávio no Instagram e recomendações de canais e contas ligadas ao candidato do PL. O deputado federal Nikolas Ferreira também é citado como um dos principais apoiadores de Flávio.

O caso chega ao TSE após decisões liminares de 15 e 18 de outubro de 2026 sobre medidas de igualdade entre as campanhas. A Meta negou atuar para interferir na eleição ou favorecer Flávio e afirmou que os episódios relatados tiveram causas distintas.
Ação aponta diferenças de alcance e recomendações algorítmicas
A Aije cita dados que, segundo a campanha de Lula, indicariam uma diferença de engajamento entre os perfis dos candidatos no Instagram. Flávio tinha 13.606.146 seguidores, 17,2% menos que os 16.436.220 de Lula, mas sua média de curtidas e comentários por publicação seria 2,96 vezes maior.
Nos Reels, a média de visualizações atribuída ao perfil de Flávio era de 15,64 milhões, ante 5,91 milhões no de Lula. A ação também compara as taxas de interação normalizadas pelo número de seguidores: 10,23% para Flávio e 2,86% para Lula, diferença de 3,58 vezes.
Outro exemplo apresentado na peça é o perfil de Nikolas Ferreira, deputado federal do PL e apoiador de Flávio. Um levantamento mencionado na Aije aponta que seus vídeos somavam dezenas de milhões de visualizações, acima dos números de perfis com mais seguidores, como os de Kylie Jenner, Kim Kardashian, Neymar, Virginia Fonseca e Beyoncé.
A ação relata ainda um teste com o mesmo vídeo publicado por Nikolas em duas plataformas: no TikTok, foram 396,4 mil visualizações; no Instagram, 56,1 milhões. Também menciona ferramentas de inteligência artificial da Meta e o Grok, do X, que teriam gerado propaganda ligada a Flávio e recusado pedidos semelhantes para Lula.
Problemas em anúncios e canais de apoio entram na investigação
Mensagens internas citadas na Aije indicariam que a conta de Lula ficou limitada para impulsionar publicações no Instagram. O problema foi registrado em 9 de outubro e durou quase 24 horas, enquanto uma falha global mencionada pela Meta havia ocorrido em 7 de outubro e se estendeu por cinco horas.
Os diálogos também tratam das buscas por canais no WhatsApp. Ao pesquisar “Exército de Lula”, nome do canal do presidente, usuários receberiam uma recomendação do canal “Tropa do Flávio”, embora a regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determine que canais de candidatos não sejam recomendados e só apareçam quando a busca corresponder ao nome exato da conta.
As mensagens citadas pela campanha também apontariam que o perfil de Flávio aparecia entre as recomendações nas buscas do Instagram, enquanto o de Lula não era exibido nem quando o usuário digitava o nome exato. A Aije afirma que funcionários da Meta tinham conhecimento de que essas contas estavam sendo apresentadas de modo diferente.
A peça inclui ainda uma publicação de Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), contra Lula. Impulsionada com recursos da entidade em 13 de outubro, a postagem teria alcançado mais de 1 milhão de usuários do Facebook e do Instagram; segundo a regra eleitoral citada na ação, apenas partidos, coligações e candidatos podem pagar pelo impulsionamento de propaganda, que não pode ser negativa.
TSE cobra medidas da Meta, que nega favorecimento eleitoral
Em liminar, o ministro Marco Bellizze determinou que a Meta tratasse os candidatos de forma isonômica e corrigisse problemas nas contas de anúncio de Lula, além de fornecer informações e adotar providências. A decisão estabeleceu multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento.
Em outra decisão liminar, Bellizze fixou prazo de 24 horas para a empresa cumprir as exigências e determinou que a multa diária subisse para R$ 1 milhão caso as medidas não fossem atendidas. A campanha de Lula já havia acionado o TSE para pedir providências sobre falhas que classificou como reiteradas e sistemáticas na entrega de publicações do presidente e de aliados.
Procurada em 16 de outubro, a Meta afirmou que as acusações de interferência na eleição ou favorecimento à candidatura de Flávio eram falsas. A empresa declarou que os episódios tinham causas distintas, que alguns afetaram contas e anunciantes em diferentes países e que seus sistemas não são concebidos nem operados para dar tratamento preferencial a candidatos, partidos ou posições políticas.
Luiz Eduardo Peccinin, advogado que assina a Aije, afirmou que os indícios exigiam apuração e responsabilização. Maíra Recchia, outra autora da ação, defendeu transparência sobre os algoritmos e disse que uma redução indevida do alcance poderia comprometer a igualdade da disputa; por isso, a campanha pediu informações sobre o funcionamento dos sistemas da Meta e acesso a mensagens internas da empresa.

Técnico em guia de turismo; Estudante de Jornalismo, editor e revisor.
